Brasil

Análise da Unicamp detecta tirzepatida em canetas emagrecedoras do Paraguai, mas alerta sobre riscos

Uma análise independente realizada por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou a presença de tirzepatida, princípio ativo do medicamento Mounjaro, em canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil. O estudo, encomendado pela Folha de S.Paulo, foi divulgado nesta semana e também constatou que as amostras não continham semaglutida, substância utilizada nos medicamentos Ozempic e Wegovy.

Os pesquisadores avaliaram amostras dos medicamentos Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, produzidos pelos laboratórios paraguaios Catedral, Indufar, Eticos, Quimfa e Lasca. O objetivo foi verificar a presença, a concentração e a estrutura molecular da tirzepatida.

Apesar da confirmação do princípio ativo, os pesquisadores destacaram que a análise não avaliou aspectos essenciais como esterilidade, presença de impurezas, contaminantes, eficácia clínica e segurança dos produtos.

As canetas possuem registro sanitário junto à Direção Nacional de Vigilância Sanitária do Paraguai (Dinavisa), mas não são registradas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por esse motivo, sua importação, comercialização e distribuição são proibidas no Brasil.

Segundo a Anvisa, análises laboratoriais independentes são importantes, mas não substituem o processo regulatório exigido para aprovação de medicamentos. A agência ressalta que a avaliação inclui critérios como qualidade farmacêutica, segurança, eficácia, equivalência terapêutica e conformidade documental.

Os medicamentos analisados foram adquiridos pela reportagem da Folha entre os dias 13 e 15 de maio por meio de vendedores que anunciavam os produtos no TikTok, Instagram e WhatsApp. As amostras foram encaminhadas ao Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp, onde passaram por análises utilizando cromatografia líquida de alta eficiência, espectrometria de massas de alta resolução e dicroísmo circular.

De acordo com os pesquisadores, quatro dos cinco medicamentos apresentaram variações de concentração de até 20% em relação ao medicamento de referência, índice considerado aceitável pela indústria farmacêutica. No entanto, a amostra do Gluconex chamou atenção por apresentar concentração aproximadamente 60% superior à informada pelo fabricante, aumentando o risco de efeitos adversos como hipoglicemia.

A fabricante do Mounjaro, a farmacêutica Eli Lilly, afirmou que a identificação da tirzepatida nos produtos paraguaios não comprova que eles sejam seguros, eficazes ou equivalentes ao medicamento original. Segundo a empresa, fatores como pureza, processo de fabricação e estabilidade influenciam diretamente a segurança e o desempenho do produto.

Especialistas também alertam para os riscos do uso de medicamentos sem registro na Anvisa. Entre as principais preocupações estão a ausência de controle sobre armazenamento e transporte, possibilidade de contaminação, erros de dosagem e dificuldade de responsabilização em caso de efeitos adversos.

Além das questões relacionadas à saúde, a comercialização desses medicamentos pode gerar consequências legais. Conforme especialistas em direito consultados pela reportagem, a importação e revenda de produtos sem autorização da Anvisa podem configurar crimes como contrabando e infrações contra a saúde pública.

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