Reflexão Por: Ygor Coelho

Cruz das Almas e a minha história…

Ygor da Silva Coelho

Na escada da Prefeitura Municipal sentei e chorei. Com apenas 15 anos de idade, era o meu primeiro domingo em Cruz das Almas-BA, seis dias após chegar de Itabuna.

O único convite que ouvi naquele dia foi o sino da igreja, alertando para o horário da missa. Depois do ato religioso, na praça principal vazia de gente, começou uma chuva fina. Águas de março! Vi a escada da prefeitura com degraus de mármore branco, hoje granito avermelhado, sentei para me proteger da chuva.

Domingo de chuva numa cidade estranha e eu ali sem os meus pais, sem amigos, sem a praia de Ilhéus, sem o Grapiúna Tênis Clube, sem os cines Itabuna e Santa Clara…

E eu me perguntava: – Quem inventou que o ensino nessa pequena cidade é melhor do que em Ilhéus ou Itabuna e me fez sair de casa?

Chuva fina não costuma passar rápido e o cinema de Cruz das Almas não tinha matinal aos domingos. Eu assistiria até outra missa para não me ver sozinho, mas a igreja só voltava abrir as portas às 17 horas.

Foi um domingo cruel! Será que por isso amo os sábados, nunca os domingos? Era apenas o começo de uma longa jornada: fazer o curso científico no CEAT, o vestibular e a faculdade. Contava os dias para voltar para Ilhéus ou Itabuna e trabalhar com cacau!

Aos poucos, conheci estudantes com histórias iguais às minhas e foram surgindo ombros amigos. Famílias tradicionais da cidade reconheceram meus olhos tristes. Não mais sentei na escadaria da Prefeitura para chorar. Passei a frequentar as casas das famílias Gastão Alves, Fonseca Reis, Mathias Lordelo, Cândido Oliveira, Luiz Vargas…

O carinho me fez esquecer a praia e o meu clube Grapiúna. E, ressalte-se, era preciso uma dose muito alta de carinho para fazer esquecer o Grapiúna!

Hoje, tantas décadas depois, num domingo igualmente nublado, passando em frente à Prefeitura olhei a escadaria, lembrei do passado e sentei. Foi ali que o garoto chorou!

E Itabuna? Ilhéus? O cacau? E a saudade que me fez chorar? Ficaram na minha história. A felicidade que buscamos pode se encontrar na jornada. Cruz das Almas se tornou minha terra! Aprendi a amá-la! Devo-lhe muito!

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