Pós-São João e os 60 milhões

O São João de Cruz das Almas é, sem dúvidas, um dos melhores da Bahia. E não é por acaso. A cidade virou referência ao unir tradição e modernidade numa festa que movimenta milhões e multidões, aquece a economia local e reforça o orgulho do povo. O problema é que, quando a fogueira apagou, as brasas políticas seguiram queimando.
No embalo do sucesso junino, a Prefeitura reenviou à Câmara um projeto para contratar um empréstimo de R$ 60 milhões junto à Caixa Econômica Federal. Um pedido que já havia sido aprovado em abril foi reapresentado em hora infeliz. A proposta caiu no colo do presidente da Câmara, que, talvez seduzido pelos flashes juninos, decidiu convocar sessão extraordinária em plena ressaca do São João, no dia 26 de junho, às 9h da manhã.
O resultado foi desastroso. A internet, essa besta indomável, tratou de viralizar a história. Bastou um título chamativo e uma conexão lógica: “A cidade gastou milhões na festa e agora quer mais milhões emprestados?” A pergunta viajou rápido, estourando em sites, rádios, redes sociais e telejornais.
Diante da crise de imagem, o prefeito Ednaldo Ribeiro, em vez de jogar água no fogo, despejou gasolina. Em entrevista a uma rádio local, partiu para o ataque verbal contra o deputado estadual Robinson Almeida, bastante conhecido e bem relacionado. O gesto impulsivo, além de deselegante, deu nova dimensão ao caso, agora definitivamente com impacto estadual.
O presidente da Câmara, em atitude igualmente intempestiva, atropelou a linha de comunicação oficial da gestão. Sentado na cadeira da presidência do Legislativo municipal, usou o microfone como palanque e correu para defender o prefeito. No afã de mostrar lealdade, passou por cima dos líderes da base, dos ritos, da comunicação oficial do governo e da liturgia do cargo. O resultado foi mais ruído do que explicação.
As versões para o empréstimo se atropelam. “Não são 180 milhões”, dizem uns. “Não é para o São João”, juram outros. “É fake news”, gritam. Mas a verdade é mais dura: um município que arrecadou quase um bilhão em quatro anos e gastou 20 milhões no São João 2025 ainda precisar recorrer a sucessivos empréstimos causa desconfiança. Exemplo disso é o empréstimo efetivado no Branco do Brasil de 7,5 milhões no dia 25 de junho de 2025. E mais: ninguém pede crédito com sobra no caixa.
A terceira temporada do governo Ednaldo dá sinais de desgaste. A base política já não fala com a mesma voz. O discurso se desencontra. A sociedade observa, crítica. As grandes obras seguem no ritmo do concreto e sem término, mas faltam respostas nas áreas que tocam o dia a dia da população: saúde, emprego, assistência, limpeza, escuta. O essencial continua esquecido.
A oposição, que até então estava sem lugar de fala, entra em cena pelas portas escancaradas pelo governo e esboça reação diante da soberba e dos vacilos institucionais. Exemplo disso foram os vídeos gravados e divulgados por Orlandinho, Max Passos e Kauã de Alemão. Este último, inclusive, recebeu resposta nominal do presidente da Câmara, que, ao rebater, ampliou ainda mais a exposição do caso e alimentou o desgaste do grupo governista.
Neste episódio, ficou evidente uma distorção perigosa na relação entre os Poderes. Executivo e Legislativo confundem harmonia com submissão. E quando o sistema de freios e contrapesos se transforma em correia de transmissão, quem perde é a sociedade. O prefeito tem que ter calma. A Câmara deve funcionar como casa autônoma, com capacidade crítica, e não como caixa de ressonância de um prefeito ansioso por aplausos.
O prestígio do São João e o barulho das obras não bastam para sustentar um governo. Eles até emocionam, mas não encobrem os tropeços. Cruz das Almas começa a entender que o brilho da festa não apaga os problemas do dia-a-dia. O bonde de “Tio Nal” segue descendo ladeira abaixo. Ainda há tempo de puxar o freio. Mas, para isso, será preciso menos fogos e mais governo.





























