MP-BA aponta que integrantes da Bamor discutiram ameaças para impedir denúncias de tortura: “Não vai ter paz”

Integrantes da Bamor, torcida organizada do Bahia, discutiram maneiras de intimidar duas vítimas de tortura para impedir que elas denunciassem as agressões à polícia e à imprensa. As conversas, que incluem ameaças de novas violências, foram identificadas em um relatório do Ministério Público da Bahia (MP-BA), obtido pelo g1 e pela TV Bahia.

Em uma das mensagens, o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, sugeriu que integrantes fossem até a casa de uma das vítimas para intimidá-la. “A gente tem que ir é na porta dele, irmão. Pegar ele de novo. […] Pra ele ver que não vai ter paz, irmão. Entendeu?”, afirmou.
Os diálogos foram registrados em 20 de julho, dois dias após o segundo episódio de tortura investigado pelo MP-BA. Segundo o relatório, os integrantes descobriram que uma das vítimas estava compartilhando mensagens sobre as agressões e passaram a discutir formas de impedir que o caso ganhasse repercussão.
As conversas foram extraídas de um celular apreendido durante a Operação Inquisição, realizada em 28 de setembro. A ação resultou na prisão de dez pessoas, entre elas Matheus Pires Castro e o vice-presidente da torcida, Luciano da Silva Venâncio.
Ameaças começaram após vítima relatar agressões
Segundo as investigações, dois homens foram submetidos a sessões de tortura física e psicológica na sede da Bamor, no bairro de Nazaré, em Salvador, nos dias 17 e 18 de julho. As agressões teriam ocorrido após as vítimas serem convocadas para prestar esclarecimentos sobre supostas irregularidades financeiras envolvendo o sistema de gestão de associados da entidade. Cada episódio teria durado cerca de quatro horas.
Em 2 de outubro, o Ministério Público denunciou os dez investigados por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça.
De acordo com o relatório, as conversas sobre intimidação começaram na manhã de 20 de julho, quando um integrante identificado como “Kakaroto”, apelido associado a Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing da Bamor, compartilhou mensagens atribuídas a uma das vítimas. O homem integrava a torcida havia aproximadamente 18 anos e relatava as agressões que teria sofrido.
Às 7h42, Matheus, identificado no grupo como “Mts”, sugeriu que os integrantes procurassem a vítima para fazê-la parar de falar sobre o ocorrido. Um minuto depois, outro participante, identificado como Daniel, diretor da sede da torcida, concordou com a proposta.
Segundo os investigadores, as mensagens indicam uma tentativa de localizar o homem e ameaçá-lo com novas agressões caso continuasse divulgando informações sobre a tortura. Às 7h47, Daniel também fez referência à frase “Morto não fala”, que, segundo ele, havia sido dita anteriormente pelo vice-presidente Luciano da Silva Venâncio.
Presidente ameaçou aumentar duração das agressões
Às 7h48, Matheus voltou a comentar as mensagens em que a vítima relatava ter sido torturada durante quatro horas. Em um áudio, o presidente ameaçou dobrar a duração das agressões caso o homem continuasse falando sobre o caso.
“Avisa a ele que se não aprender, próxima vez é oito horas, viu? Não vão ser quatro não, vão ser oito!”, afirmou.
O relatório também registra mensagens sobre a possibilidade de localizar a vítima. Às 7h54, um participante identificado como “Wagner” compartilhou informações sobre onde o homem poderia ser encontrado e demonstrou disposição para ir até o local.
Em outro trecho, um dos interlocutores afirmou que a vítima poderia sofrer represálias caso insistisse em denunciar os crimes. “Ele sabe que se ele for pra cima é pior pra ele, todo mundo sabe onde ele mora, ele vai ter que sumir daqui”, diz a mensagem reproduzida no documento.
Às 8h18, Matheus orientou os integrantes sobre como abordar um dos homens. “Dá logo umas ideia duras nele. Se ele procurar onda, vai se fuder, entendeu? Tem negócio de história, não!”, disse.
Na mesma sequência, um participante defendeu que a intimidação fosse feita de maneira indireta, para evitar que os envolvidos fossem prejudicados. “Quando vai falar tem que ter um tom de ameaça, tá ligado? Não é chegar e ameaçar, mas é dar a entender coisas, saber falar, mano, tá ligado? Saber falar.”
Para o MP-BA, as conversas indicam que os integrantes discutiam formas de provocar medo nas vítimas para fazê-las desistir das denúncias.
Integrantes sugeriram apagar conversas
O relatório também registra uma discussão sobre a possibilidade de apagar mensagens de um grupo de WhatsApp para evitar que os registros fossem usados como provas.
A sugestão partiu de “Kakaroto Drt”, apelido associado a Ricardo Henrique Almeida da Silva. Em um áudio, ele demonstrou preocupação com a possibilidade de a vítima denunciar as agressões e recomendou a exclusão das conversas.
“Melhor apagar tudo essas por aí, viu? Essas paradas aí porque, querendo ou não, vai que essa desgraça denuncia aí, sei lá. […] Inclusive apagar esse grupo aqui as conversa”, afirmou.
Outro integrante, identificado como Daniel, respondeu que não havia motivo para temer a existência de provas e admitiu que a vítima havia sido agredida pelo grupo.
“Não tem negócio de prova não, mano, provar o quê, véi? A gente pegou ele ‘mermo’, mano, que ele é ladrão, ‘tava’ roubando a torcida, então a gente meteu a desgraça nele e já foi”, declarou.
As alegações de supostos desvios financeiros foram feitas pelos integrantes da torcida e não comprovam que a vítima tenha cometido irregularidades.
Presidente orientou integrantes sobre versão a apresentar
Outras mensagens foram enviadas por Matheus em 19 de julho, um dia após o segundo episódio de tortura investigado. Em um áudio, ele orientou os integrantes a atribuírem as agressões à diretoria da torcida, sem identificar individualmente quem teria praticado cada ato.
“Mas é isso, irmão, deixa eu te falar: ‘cê’ tem que falar que quem pegou foi a diretoria, não foi A, B, nem C, não. Teve facada? Teve. Quem foi que deu? A diretoria. Teve tiro? Teve. Quem deu? A diretoria. […] Tudo que a gente faz aqui é a diretoria. Não existe a pessoa física, não, entendeu?”, afirmou.
Na sequência, o presidente reforçou que os integrantes deveriam manter a mesma versão sobre os episódios, argumentando que a identificação individual poderia gerar conflitos.
Em outro áudio, Matheus também orientou a torcida a manter suas atividades normalmente enquanto os envolvidos tentavam resolver a situação com as vítimas. “Mano, ó… o certo é a gente continuar seguindo a torcida normalmente, entendeu? E o que vier a gente vai se defender, entendeu? A gente tem nossas provas também, tá ligado?”, disse.
Integrante afirmou ter quebrado braço de vítima
Uma das mensagens citadas no relatório foi enviada na manhã de 18 de julho por Ricardo, identificado como “Kakaroto Drt”. Ao responder a uma mensagem de Daniel, ele afirmou: “Só me arrependi de não bater mais. Mas um braço deixei quebrado”.
Na sequência, Ricardo sugeriu que a análise de um celular poderia revelar outras supostas irregularidades. “Se cavar aí, acha mais coisa nesse celular. Nós pega mais ratos”, escreveu.
Em outro diálogo, um participante identificado como “Mts”, associado a Matheus Pires Castro, mencionou o uso de uma barra durante as agressões. “Rapaz, Piton pegou aquela barra ali, mano. Na hora que ele levantou, rapaz, pensei que ele fosse arrancar o teto”, afirmou.
O Ministério Público aponta que os diálogos fazem referência às agressões contra uma das vítimas. As conversas também contêm menções ao uso de uma faca.
Em 19 de julho, Matheus enviou novos áudios ao grupo e ameaçou aplicar punições ainda mais violentas caso surgissem novas suspeitas de desvios financeiros.
“Quem a gente pegar roubando agora vai ser pior. […] Se for preciso, a gente vai arrancar uma mão, vai arrancar um pé”, afirmou.
Dez integrantes foram denunciados pelo MP-BA
Em 2 de outubro, o Ministério Público da Bahia denunciou dez investigados no caso. São eles:
- Matheus Pires Castro, presidente da Bamor;
- Luciano da Silva Venâncio, vice-presidente;
- Gabriel Pereira Silva, diretor-geral;
- Daniel Sena Duarte, diretor de sede;
- Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing;
- Diego Allan Conceição Sacramento, diretor de patrimônio;
- Ivã Cleiton de Jesus Santos, diretor de bateria;
- Luiz Wagner da Silva Santana, diretor de sede;
- Alan Rafael Regis Alves de Aquino, diretor financeiro;
- Fernando Santana Esquivel, policial militar apontado como integrante da torcida organizada.
Segundo a promotora de Justiça Thelma Leal, do MP-BA, os dez denunciados teriam participado das agressões, em diferentes graus.
“O presidente e o vice estão presos. Todos participaram ativamente dos atos de tortura, de alguma forma, com maior ou menor proporção. Os relatos das vítimas dão conta que todos que estão presos participaram”, afirmou.
A promotora destacou que as prisões atingiram integrantes da cúpula da torcida e disse esperar mudanças na liderança da entidade e medidas para evitar novos episódios de violência.



Letróloga em Língua Espanhola e redatora do JornalZero75. Natural de Alagoinhas e residente em Santo Antônio de Jesus há 8 anos.















